Aquele velho maluco

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Eu o conheci no Café Central, foi num fim de tarde qualquer, enquanto saboreava meu blend predileto.

No canto do balcão, perto da parede, numa posição quase imperceptível, jazia a figura de um homem, visivelmente desgastado pela vida, trajando uma vestimenta igualmente desgastada.

Ele parecia um mendigo, mas não um mendigo comum, seu porte era de certa forma imponente, cheio de dignidade, parecia emanar uma aura, um brilho, e seu comportamento não era o de uma pessoa perturbada, pelo contrário, ele agia como qualquer pessoa “comum” agiria naquela situação.

Perguntei ao barista sobre ele, e descobri que a estranha figura costumava frequentar o Café em horários de pouco movimento, sempre em busca do lanche gratuito que a casa oferecia.

Isso despertou minha curiosidade, pois eu jamais pensei naquelas pessoas, no tipo de vida que elas levam, como sobrevivem, porque estão na rua. Decidi me aproximar.

– Boa tarde senhor, posso lhe oferecer uma fatia de bolo ou algo assim?

– Agradeço imensamente, mas a casa já dispõe desse tipo de refeição graciosamente.

Sua dicção era perfeita, seu tom de voz demonstrava pleno controle da situação, ele não parecia se importar com mais nada naquele momento, a não ser em apreciar seu espresso.

– Desculpe-me, só pensei em ajudar alguém desamparado.

Eu não medi minhas palavras antes de responder, então soltei aquela frase odiosa.

– Não se sinta mal, percebo suas boas intenções, o seu único erro foi concluir que estou desamparado. Apesar de meus trajes denunciarem certa condição precária, posso garantir que dentre nós, eu sou aquele que está em melhor situação.

Ao dizer isso ele sorriu levemente. Aquelas palavras não faziam sentido para mim. Como ele poderia estar em melhores condições que eu? Impossível.

– O que o faz pensar que estaria em melhores condições econômicas que eu? Perguntei já com ares de irritação, tamanha a insolência manifesta naquela pergunta.

– Ora, é muito simples: eu sou livre e o senhor não é.

– Isso é um absurdo! Sou um empresário renomado na cidade, posso ir e vir e não devo satisfações a ninguém! Todas as portas da cidade estão abertas para mim!

– Por favor, permita-me provar este ponto. O senhor porta uma valise Herrero Marlé, de couro legítimo, que custa cerca de 5 mil euros. Seu relógio é um Sigmund Imperator, fabricado manualmente, avaliado em 15 mil dólares. Seu reluzente terno é o novíssimo Diogo Faria, e me atrevo a dizer que ele não custou menos de 8 mil.

– Seu carro é um Galaxie Marine GTB II, de 1976. Só fabricaram 90 desses modelos na Áustria, e trazê-lo para cá deve ter custado uma pequena fortuna, além de mais algumas centenas de milhares gastos na aquisição e restauração.

– O senhor trabalha no Edifício Barão do Café, posso ver isso pelo cartão de acesso, lá fica a sede das principais empresas da Cidade, bem no Centro, no coração financeiro, no metro quadrado mais caro do continente.

– Não vejo aliança no seu dedo, então posso concluir que não tem família, ou que a perdeu. Sua barba está impecável, o que denota demasiada preocupação com a aparência. Não usa lentes de contato e nem óculos, e a julgar pelo seu aspecto geral, deve ter entre 40 e 45 anos de idade, isso demonstra que goza de certa estabilidade na saúde.

– Posso ainda especular que o senhor vive num lugar muito caro, cujo custo fixo de manutenção seria proibitivo para 95% das pessoas. Deve ter ainda empregados em casa.

– Ou seja, o senhor é só mais uma pessoa comum, escravizada pelo patrimônio, e de tão pobre que é, só tem dinheiro para dividir com outras pessoas.

Como é possível, aquele velho maluco leu a minha mente? Ele me conhece? Não lembro dele. Será um espião? Ele está me seguindo? Alguém o colocou para me seguir?

– Como o senhor sabe de tudo isso? Quem pensa que é?

– Calma, preciso concluir meu raciocínio. Eu não tenho propriedades, nem pertences muito caros. Não tenho endereço fixo, nem emprego formal, não sou devedor tributário, nem credor de ninguém. Não tenho horários nem deveres diários. Em resumo eu não tenho nada que me prenda a este lugar, sou completamente livre para ir e vir e não devo satisfação a ninguém. Não fosse tudo isso, ainda tenho liberdade para pensar da forma como eu quiser e de expor minha opinião a quem eu quiser.

– Isso é um absurdo, o senhor não é livre, nem tem onde morar, é um sem teto, como pode estar em melhores condições que eu? – Sério, aquela comparação esdrúxula me enfureceu.

– Ora senhor, posso provar meu ponto. É simples. Por favor me acompanhe.

Ele saiu do Café, mas não sem antes agradecer ao barista, tecendo elogios ao blend e recomendando que ele aprendesse sobre uma nova técnica de extração desenvolvida pelos colombianos.

Na calçada ele apontou para o prédio em frente e disse:

– A esmagadora maioria das pessoas não percebe, mas nós vivemos em sociedade por um único motivo: obter vantagens mútuas, para que todas as pessoas alcancem o máximo do potencial humano. E continuou:

– Vê este prédio? O arquiteto que o projetou e o engenheiro que o construiu deixaram nele suas marcas, e este amontoado de materiais, dispostos da maneira e ordem corretas, representa a expressão de um projeto, de um sonho, de uma ideia. Eles não descansaram enquanto o prédio não ficou pronto.

– No dia em que me dei conta disso, percebi que minha vida não tinha qualquer propósito, então levantei de onde estava e saí em busca dele, do motivo, do propósito, do sentido, e desde então me tornei livre, cidadão de lugar nenhum e de todos os lugares. Posso ser quem eu quiser. Estou completamente livre.

As palavras daquele sem teto pareciam ingênuas, mas de alguma forma faziam algum tipo de sentido. Porém eu estava resistente. Eu não havia entendido, ainda.

Após dizer isso ele sorriu, apertou firmemente minha mão e se foi, tão digno e imponente quanto antes parecia.

Passado algum tempo, no mesmo lugar do único encontro que tivemos, perguntei ao barista sobre o velho maluco. Ele me disse que alguém que estivera no café também se aproximou do velho e o chamou para conversar, e depois de cerca de uma hora de papo, essa pessoa convidou o sem teto para dar uma palestra no World Financial Center, em Malibu, nos EUA. Ele disse ainda que nessa ocasião aquele senhor carente fora recebido pelas maiores autoridades no setor de tecnologia global, além dos maiores investidores do mundo.

Procurei por essa informação na internet e descobri que as principais empresas de tecnologia do Vale do Silício o contrataram para gerenciar um projeto de dessalinização da água do mar, cujo resultado seria implementado em vários lugares do planeta, em regiões carentes do mundo todo, com vistas à distribuição gratuita de água.

Aquele velho maluco havia se tornado um raio de esperança na vida das pessoas, ele era realmente livre e se tornou muito maior do que eu jamais seria.

Eu, o maior empresário da cidade, sou tão pobre que não possuo nada além de dinheiro.

Autor: Jessé Borges Furin

Pretendo escrever como meio de vida. Este blog é o rascunho desta tentativa.

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