Mais um dia

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Olho para o relógio da parede que marca 23:47, constato o fim de mais um dia.

Estou mais perto do fim ou do começo da vida? O dia que agora termina marca o momento mais próximo da morte? Eu sou mais velho do que jamais serei? Ou ainda sou jovem demais para morrer? Essas perguntas me assombram. Onde coloquei meu Rivotril?

Levanto da cadeira do meu escritório e percebo que apenas eu e os seguranças continuávamos ali. Como aquele lugar era diferente durante a noite. Durante o dia os paulistanos mais emocionalmente instáveis se reuniam para resolver os problemas de outros paulistanos igualmente desequilibrados, tudo em nome do vil metal, sempre no afã de obter mais e mais dinheiro.

Arrumo alguns papéis, arquivo outros, desligo meu PC, a cafeteira, o rádio e o ar condicionado. Agora aquele silêncio sepulcral exige se instalar, pois até aquele instante, apenas minha sala esteve fora de seus domínios.

A visão que tenho da ampla janela é linda, do alto do 23º andar do Edifício Barão do Café, bem no centro da cidade. Daqui é possível concluir que esse mar de prédios e ruas, com seu movimento incessante, é o lugar mais incrível e promissor do mundo.

Mas a cidade não me engana, eu a conheço, somos íntimos, sei que em suas ruas o que pulsa não é o progresso e nem a riqueza, mas sim a decadência, a sujeira, o crime, o sexo pago, a corrupção sem fim do Estado.

Eu conheço muito bem essa cidade, e ela me conhece.

Pego minha valise e sigo para o elevador, desembarco no enorme e moderno saguão, cravejado de acessos biométricos, tal e qual um grande cercado tecnológico, reluzente, de aço inoxidável.

Ao escanear minhas digitais o sistema responde com uma voz meiga e suave, me desejando boa noite. O computador tenta imitar uma doce e gentil mulher, pronta para me servir. Porém é só isso, uma máquina, uma inteligência sintética.

A realidade é outra, sei que nenhuma mulher de verdade gostaria de se envolver comigo, não depois do que houve com minha família. Não consigo parar de pensar nisso. Mais Rivotril.

O taxista me aguarda, foi chamado pelo sistema que insistia em me servir. Essas são as vantagens de trabalhar em prédios modernos, com farta tecnologia disponível, onde o ar que respiramos é duplamente filtrado, a água é tratada, os dejetos são destinados corretamente, a produção de energia é independente, e onde há até uma horta para os funcionários. Mas o que eles vendem como tecnologia e comodidade, eu vejo como vigilância 24 horas.

Já no carro, cujo motorista já sabia o destino, eu desejo uma bela xícara de café, bem quente e amargo, bem como a vida, mas a única cafeteria decente da cidade já estava fechada. Precisaria eu mesmo fazer um café.

Em casa sou recebido pelo gato, que faminto exige minha atenção, carinho, comida, mais atenção e mais comida. Os gatos são assim sinceros, eles deixam claro como, quando e o que desejam, e ao final, após servi-los, se tiver sorte, receberá um ronronar, caso contrário nem isso. Eles dão de costas e voltam a dormir.

Eu gosto de gatos, eles são práticos e sinceros. As pessoas deveriam aprender com eles. Preciso de Bourbon, não de café.

O novo dia começou há cerca de 35 minutos e a noite insiste em vender sua imagem de tranquilidade. Eu decido aceitar a oferta.

Tento dormir, mas minha mente sabe de tudo e não permite. Não paro de pensar naquele dia, mesmo tendo me afogado no trabalho pela última década, 15 horas por dia, não consigo, a culpa é maior, mais forte, infinita, me aprisiona. Me perdoem por favor. Mais Rivotril, mais Bourbon.

Algumas horas depois, já pela manhã, o taxista e os analgésicos me aguardam. Aquele sistema do prédio é irritantemente chato e se antecipa, não permitindo que eu escape. Graças a Deus por isso.

Chego no escritório, todos estão lá, sorridentes, asseados, prestativos e felizes, me desejam um ótimo dia, Chefe, se precisar de algo estarei aqui, Chefe.

Dezenas de processos e 15 horas depois, eu olho para o relógio que noticia 23:47.

Menos um dia. Mais um dia.

Maldito sistema. Bendito Rivotril.

Autor: Jessé Borges Furin

Pretendo escrever como meio de vida. Este blog é o rascunho desta tentativa.

3 comentários em “Mais um dia”

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